Guilherme Henrique Pereira*
Relembrar as contribuições do Instituto Jones, como é carinhosamente referido por toda uma geração de pensadores capixabas, para além de ser um exercício prazeroso, é também uma reflexão necessária e a celebração dos seus 50 anos a oportunidade imperdível. Necessária para o conhecimento da história do planejamento no ES. Os diferentes cenários – na economia e na política - ao longo destes 50 anos ofereceram as condicionantes para que o IJSN oscilasse entre um protagonismo ativo e apenas sobrevivência. Também reflexão necessária para identificar o que o cenário do Brasil no século XXI, do ES em particular, cobra de uma organização situada no campo da produção do conhecimento.
Entre os historiadores do planejamento no Brasil há praticamente consenso em situar a década de 1930 como anos que marcaram o início da atividade entre nós. Do Estado Novo ao final da ditadura – início dos anos 1980 – o chamado planejamento tradicional era atividade estruturante das políticas de desenvolvimento e foram decisivas na aceleração do processo de industrialização. O planejamento, pela sua associação com as práticas das economias então ditas socialistas, ou de planejamento central, foi colocado pelos liberais na lista dos grandes entraves que deveriam ser abandonados. E foi isso que aconteceu por aqui nas últimas duas décadas do século passado.
No ES o primeiro grupo organizado para realizar estudos sobre economia e sociedade capixaba foi instalado na antiga CODES (Companhia de Desenvolvimento do Espírito Santo, depois Banco de Desenvolvimento do ES, BANDES). Todo planejamento da política de industrialização implantada naquele período tiveram as digitais deste grupo. No entanto, em poucos anos verificou-se que era um arranjo com limitações por se tratar de um Banco. Por outro lado, o avanço da industrialização e o anúncio das obras de grandes projetos no entorno da Capital, criaram um cenário novo com demandas mais amplas para o planejamento das prioridades da política local.
É neste contexto que surge a Fundação Jones dos Santos Neves. Dentre diversas linhas de pesquisas abertas nestes primeiros anos de existência, a que mais se destacou foi a de planejamento urbano. A FJSN formou um time altamente produtivo que foi responsável por pensar intervenções decisivas realizadas em diversas cidades, mas principalmente na Grande Vitória. Mais que dobramos nossa economia e cidades sem que nenhum gargalo significativo atrapalhasse o ritmo de nossa industrialização. Não só foram relevantes os projeto e estudos realizados durante este período, mas também a contribuição na formação de recursos humanos. Dezenas de técnicos ali formados foram responsáveis por melhorias implantadas na administração estadual e em diversas prefeituras. Aliás, até hoje encontramos diversos técnicos trabalhando em diferentes órgãos públicos.
Se a prática do planejamento no Brasil imperou nas décadas de 1970 a 1980, podemos dizer que a FJSN foi criada tardiamente e sufocada precocemente. Sua rica trajetória de partida foi paulatinamente sofrendo limitações sob alegação de que o Governo não dispunha mais de recursos financeiros para manter uma instituição de pesquisa, porém a real e mais importante causa foi o ideário liberal que desacreditou a prática do planejamento. Nas décadas de 1980 e 1990 foram muitos ataques à organização, transformada em autarquia – sob denominação de Instituto – explicado como necessidade de limitar autonomia; alguns técnicos saíram, outros emprestados para diversas organizações e em vários momentos foi alvo de tentativas de extinção. Salários defasados e atrasados e instalações precárias não impediram o corpo técnico remanescente de firmar resistência. E a virada de século também coincide, aproximadamente, com a retomada de prestígio da prática do planejamento em várias partes do mundo, inclusive no Brasil e no ES. Apesar deste período administrativo (1999/2002) ter fechado um ciclo de grandes perturbações na política e na gestão governamental, o IJSN, visto isoladamente, foi apoiado e retomou com sucesso sua presença marcante na sociedade local. Embora, com recursos bem limitados, construiu uma sede moderna, especialmente para época. Iniciou diversas novas linhas de pesquisa, dentre elas os estudos sobre violência e segurança, cálculo de indicadores – principal atividade atualmente -, incluindo o cálculo do PIB, os indicadores do comércio exterior, de investimentos, etc.
Para fechar este panorama histórico em largas pinceladas, é importante deixar registrado que a credibilidade conquistada, também lhe impôs demandas fora de sua vocação de produzir conhecimento. Mas, desde logo, cabe informar que mesmo fora de seu foco, o IJSN desempenhou tais funções com eficiência. O IJSN foi por algum tempo operador do FUNCITEC, fundo de ciência e tecnologia; por solicitação do BNDES foi o operador do Fundo do Vale do Rio Doce que abrangia ações em 45 municípios; também por demanda do Ministério do Desenvolvimento Agrário foi o responsável pelo a estruturação aqui no ES do programa de financiamento fundiário em execução naquela época.
Como vimos, o IJSN mais se destacou quando enfrentou o desafio de contribuir para o planejamento dos investimentos públicos preparatórios para a grande arrancada da industrialização, que traria junto um acelerado processo de urbanização. Formou recursos humanos, absorveu metodologias e entregou o que lhe foi demandado, talvez até mais do que era esperado. Gerou credibilidade que lhe trouxe ônus, mas também o salvou das propostas de extinção.
E agora, fechando o primeiro quarto do século XXI, quais seriam os desafios que o IJSN poderia escolher para enfrentar?
Antes de especular sobre tais desafios, é necessário ter em mente algumas pré-condições. Recursos financeiros atualmente não é um problema para o Governo estadual. No entanto, a cultura dos dirigentes locais ainda é muito provinciana, isto é, acreditam no que vem de fora como muito melhor; ainda não tomaram conhecimento das competências que foram instaladas no Estado, sobretudo, neste século. Significativos volumes de recursos desembolsados com consultorias de fora do ES, poderiam ser investidos nas organizações locais com benefícios muito maiores e perenes. Segundo, é preciso que entendam que o desenvolvimento sustentável passa pela produção e absorção do conhecimento produzido mundo a fora e localmente. A base local de geração de conhecimento é decisiva também para absorver e customizar para as nossas necessidades. Também formar elites dirigentes localmente faz a diferença, embora seja sempre necessária a interação com o resto do mundo para o source de eventuais avanços relevantes no conhecimento científico e tecnológico. Por última pré-condição, aqui lembrada, diz respeito a necessidade de compreender os limites do desenvolvimento sustentável com base na velha manufatura. São comuns as avaliações de que a economia capixaba é concentrada na produção de commodities, enquanto a dinâmica que puxa o desenvolvimento no mundo é intensiva em conhecimento, com elevada agregação de valor.
Superadas as pré-condições, O IJSN poderá continuar sua saga, enfrentando o desafio de contribuir para o planejamento da nova economia capixaba. Para cumprir adequadamente este papel parece necessário abrir muito o foco de sua lente sobre o seu papel, incorporar outras temáticas da pesquisa científica e tecnológica, bem como a formação de RH em alto nível para o desenvolvimento, absorção e transferência de novos conhecimentos. Escolhidas algumas áreas estratégicas para promoção da nova economia regional, o IJSN poderá ser, no ano de comemoração de seu centenário, uma organização de pesquisa, ensino e extensão de referência internacional nos campos selecionados para sua atuação como lider em ciência, tecnologia e inovação para uma nova economia capixaba. Para concluir esta nota, ninguém melhor que Raul Seixas:
“Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é realidade”
Este é o momento de sonharmos juntos sobre o futuro do IJSN.
*Doutor em Ciências Econômicas, Ex-Presidente do Instituto Jones dos Santos Neves, autor do livro Economia, Governos e Suas Políticas.
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