Fabrício Augusto de Oliveira*
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, não está nem aí para as críticas que começaram a ser feitas por Fernando Haddad, ministro da Fazenda, sobre o nível exagerado da taxa de juros no Brasil. No dia 24 de novembro, declarou que a diretoria da autoridade monetária continua insatisfeita com o nível da inflação, que se encontra em queda, a qual ainda não convergiu para a meta de 3%, e que, por essa razão, os juros devem continuar em patamar restritivo. Ou seja, de que não devem cair tão cedo.
O que Galípolo pretende, explicitamente, é atingir o centro da meta de 3%, como se manifesta claramente sobre essa questão, ao afirmar que fará o necessário “para cumprir seu mandato de levar à inflação à meta”. Não lhe interessa que a mesma se situe dentro da meta, ou dentro do intervalo de 1,5% a 4,5%, porque isso comprometeria a “credibilidade” da política monetária.
Tido por seus pares no Brasil como um economista heterodoxo, sequer lhe ocorre questionar a dificuldade de se garantir uma taxa de inflação de 3% no ano no Brasil, uma país em que predomina uma estrutura econômica altamente heterogênea e desequilibrada em se tratando das condições da demanda e da oferta de produtos, agravada pelos acentuados desequilíbrios regionais. Seu objetivo é o de atingir o nível de inflação dos países desenvolvidos, que apresentam maior homogeneidade em suas estruturas econômicas, para o que promete fazer o que for necessário, mesmo que, para isso, tenha de estrangular a atividade econômica e dizimar o emprego.
Galípolo anda decepcionado com a fraqueza com que a política monetária tem afetado a atividade econômica, apesar do nível dos juros: “[...] a política monetária está funcionando, mas [...] de maneira lenta, em uma economia que vem apresentando uma resiliência para o nível de restrição que a gente colocou na política monetária”. Até mesmo, por isso, não é possível dar nenhum sinal para frente a respeito da trajetória dos juros, porque a atividade econômica, devido a um problema estrutural, mas sem apontar qual, tem resistido, em termos de crescimento e nível de emprego à dose do remédio da política monetária, mesmo com juros reais de 9-10%. E, essa condição estrutural, demanda dose maior do remédio para fazer efeito, o que significa que os juros devem continuar altos pelo tempo que for necessário e, não se pode descartar, até mesmo serem aumentados para acelerar o desaquecimento da economia.
Embora não diga claramente, o problema “estrutural” para Galípolo parece ser o chamado “risco fiscal”, ou seja, a disposição do governo Lula de sustentar uma taxa mínima de crescimento econômico, por meio dos gastos públicos, neutralizando ou pelo menos tirando forças da política monetária. De fato, até o mês de outubro, a dívida bruta do governo geral (DBGG) atingiu 78,6% do PIB, aproximando-se, assim dos temidos 80%, um crescimento no ano de 2,1pp., mas explicado, principalmente, pela incorporação dos juros nominais ao seu estoque, considerando que o resultado primário do Governo Central, nos últimos doze meses, não foi além de 0,35% do PIB, praticamente caminhando para situar-se dentro da meta de 0,25% do PIB estabelecida no arcabouço fiscal. Não se pode dizer, assim, que esse risco crescente se deva à política fiscal, mas que seja consequência da própria política monetária que tem feito a felicidade dos investidores no mercado de títulos financeiros no Brasil.
Essa, a esquizofrenia em que se debate a política monetária. Para abortar iniciativas voltadas para estimular o crescimento econômico, que esbarra em limitações da capacidade de oferta e se traduz em aumentos de preços, principalmente em economias com estruturas de produção desequilibradas, aciona o instrumento dos juros que, se contribuem para desacelerar a atividade econômica e aumentar o desemprego, reduzindo as pressões de demanda, produz um aumento gigantesco dos encargos da dívida e do endividamento público, agravando o risco fiscal. É o que o Banco Central tem feito, embora transferindo para o governo a responsabilidade por essa situação.
*Doutor em economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e do Grupo de Estudos de Conjuntura da UFES, articulista do Debates em Rede, e autor, entre outros, do livro “Karl Marx: a luta pela emancipação humana e a crítica da Economia Política”, publicado pela Editora Contracorrente, em 2025.
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