Por Ricardo Coelho dos Santos*
Sim, existe uma empresa em São Paulo chamada Emobras. E, ainda, há uma nobre organização pública com o nome de Hemobrás! Mas, aqui, quero falar da Emobrás, com acento! Uma poderosa instituição incorpórea que envolve fortemente os poderes públicos e algumas organizações privadas, que dela se beneficiam enormemente.
De onde veio esse nome? Ora, de uma piada velha: o finado Presidente Costa e Silva viajava por uma estrada e, acostumado com as grandes estatais que foram ou estavam a ser criadas, como Petrobras, Eletrobras, Nuclebrás, Telebras e outras, queria saber que organização seria a Emobras que ele tanto via anunciado. E um ministro, respeitosamente, para não ser enquadrado, respondeu que as placas que ele lia estavam escritas “Em Obras”!
Eis que acredito que existe uma poderosa Emobrás no cenário nacional. Convido os leitores a abrirem os olhos para verem se eu não tenho razão.
É uma grande instituição que se manifesta às vésperas das eleições. Aquela rua que ficou quatro anos sem calçamento recebe uma pincelada de piche à guisa de asfalto, com duração para mais quatro anos. Aquela estrada que foi fundada no início de um governo, com festas e buffet, é finalmente terminada no período eleitoral. Incompleta, muitas vezes, mas isso não nega o acontecimento festivo em que o povo, ávido por panem et circenses, comparece em massa, mais pelo circenses que pelo panem, uma vez que a verba de obra só libera a comida para meia dúzia de privilegiados no palanque.
Especialmente nos horários de maior movimentação, as ruas são parcial ou inteiramente bloqueadas para que todos vejam as obras sendo realizadas. Mostra-se que o governo não para, nem mesmo nas épocas festivas. Engarrafamentos monstruosos se tornam o símbolo do sacrifício do bem maior que é a divulgação que alguma coisa está funcionando!
Há de se apresentar uma desculpa: o cronograma atrasou! Era para a obra já ter terminado, mas um problema no Acre (sim, uma obra no Espírito Santo se atrasou por essa precisa causa) paralisou tudo!
O mais engraçado é que não consigo me recordar de alguma empreiteira ter sido multada por atraso nas obras. Já vi remanejamento dos custos, para mais, é claro, mas multa? Não me recordo. Alguém poderia até me ajudar nisso!
Mas se acreditam que a Emobrás beneficia somente a população com mais estradas, melhores ruas, saneamento adequado ou até mesmo na infraestrutura de segurança pública, devemos alertar que aqui há um grande engano. Há outros beneficiários indiretos que não podem reclamar dos seus serviços.
— Postos de gasolina. Graças às obras, um automóvel faz 3,5 km por litro. Ou seja, gasta-se por volta de quatro vezes mais!
— Mecânicos. Muitas pessoas julgam mal os donos de automóveis que quebram no engarrafamento, pondo-lhes a culpa pelo transtorno. Mas, na verdade, se até nós, motoristas e passageiros dos confortáveis e condicionados ônibus sofremos com o para-e-anda, imaginem os motores dos carros. Velho ou novo, o esforço é grande e mecanicamente fatigante.
— Receita Federal. Além dos impostos arrecadados de combustível, muitos motoristas costumam acelerar seus carros com vontade, seja para ganhar o tempo perdido, ou seja, para aliviar o estresse de se passar por um pare-e-siga sob o sol ou, pior ainda, sob a escuridão da noite. Assim, recebem multas, algumas bem pesadas…
— Ortopedistas. Não somente os motoristas são contribuintes das obras da Emobrás. Pedestres que pisam nos buracos das obras, tropeçam nas pedras do chão, são atropelados nos desvios malfeitos das calçadas enriquecem os ortopedistas não ligados ao SUS.
— Lanterneiros. Uma batida de carro, seja pelo estresse do para-e-anda, seja pelo mau uso da velocidade, são a alegria dos lanterneiros, também conhecidos como funileiros. Os donos de ferro-velho também são beneficiados.
— Farmácias. O que se deve vender de passiflora antes de se pegar um trânsito, não deve ser brincadeira!
Portanto, eis que a Emobrás existe, ajuda nossos governantes presentes e futuros e forma uma cadeia produtiva que deve ser levada a sério!
* Engeneiro e Escritor.
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