Fabricio Augusto de Oliveira*
Não deu zebra. Na reunião do Comitê de Política Monetária (Copo,) do Banco Central do dia 28 de janeiro, a taxa nominal de juros (Selic) foi mantida, pela sexta vez, em 15%. Essa era a expectativa do mercado e o Banco Central não a contrariou, usando argumentos defensáveis, mas não suficientes para convencer o próprio mercado, o governo e a população de ter sido uma decisão tecnicamente correta.
A justificativa para a manutenção da taxa de juros nesse nível é a de que o cenário externo continua nebuloso muito em virtude das imprevisíveis políticas do governo Trump e também pelo risco fiscal em que o governo tem enredado o Brasil, com uma relação dívida/PIB que já está batendo na casa de 80% no conceito do Banco Central. Não são argumentos indefensáveis, mas há uma série de motivos para defender que essa redução já poderia estar acontecendo, indicando que a Selic está fora do lugar.
A mais importante é a de que a taxa de inflação vem desacelerando há algum tempo tanto como fruto da política monetária altamente restritiva implementada pelo Banco Central como de fatores externos que têm contribuído para o enfraquecimento do dólar, o que ajuda na contenção da inflação. Tendo fechado o ano de 2025 em 4,26%, dentro da faixa da meta de 3%, as projeções do mercado continuam apostando em seu declínio em 2026, com essa expectativa tendo caído para 4%, de acordo com o Boletim Focus do dia 26 de janeiro. Mantida essa tendência, que não deve ser revertida com o início de pequenas reduções da Selic, por ela se encontrar em patamar proibitivo para o consumo e o investimento, não existe nenhuma razão para não se caminhar nessa direção.
A segunda, o juro real que se encontra escondido na taxa nominal. Com uma expectativa de inflação de 4% e, mantida a Selic em 15%, a taxa de juro real atinge 10,58% no ano, nível dificilmente obtido por qualquer aplicação na atividade econômica, caso essa expectativa se confirme. Se não a maior, o juro real no Brasil está entre os maiores do mundo. Precisariam de tanto realismo ou apenas representa a mais servil prestação de serviços ao capital financeiro?
Mais grave, é que essa taxa mantida em níveis pornográficos contamina absurdamente as contas públicas. Em 2025, somente os juros dos encargos da dívida pública representaram 7,91% do PIB, um nível revelador das dificuldades para o ajuste primário conseguir deter o crescimento de seu estoque. Mesmo colhendo um PIB positivo e um resultado primário próximo do equilíbrio entre receitas e despesas, não é possível, nessas condições, interromper e reverter essa trajetória da dívida bruta do governo geral (DBGG), que atingiu 78,7% em 2025, no conceito do Banco Central, e de 93,4% no do FMI, e a progressiva deterioração das contas públicas. Como o risco fiscal é apontado como um dos fatores que tem orientado essa política esquizofrênica do Banco Central, como enfrentar essa questão se é a própria autoridade monetária a responsável por essa situação?
O FED, banco central dos Estados Unidos, seguiu o mesmo caminho do Brasil, mantendo os juros, também na sua última reunião, entre 3,5% e 3,75%. Acontece que lá, a inflação fechou o ano de 2025 em 2,7%, com uma taxa real de juros de meros 1%, apenas 1 ponto percentual acima da taxa de inflação, muito diferente do Brasil. A interrupção do ciclo de baixa iniciada pelo FED em setembro de 2025 explica-se, segundo a instituição, pelo fato de a taxa de desemprego manter-se estabilizada, mas com a pressão inflacionária continuando forte, impactada pela política tarifária de Trump. Não se observa, assim, nenhum exagero como ocorre com a política monetária no Brasil.
O mercado aposta que a Selic começará a ser reduzida a partir da próxima reunião do Copom prevista para o mês de março e que chegará a 12,25% no final do ano. Caso o Bano Central. com a obsessão de levá-la a convergir para a meta de 3%, conseguir esse feito, a taxa de juros real cairá para 9,73%. Mas deve-se considerar ser essa a taxa que remunera os títulos da dívida pública emitidos pelo governo e de ser bem superior a cobrada pelo sistema bancário em seus empréstimos para os tomadores de crédito.
Encontrar algum empresário disposto a fazer investimentos de risco ou um consumidor a realizar compras pelo crediário com a taxa neste nível não é nada fácil. Para a gestão Galípolo à frente do Banco Central, tido por seus pares como um economista heterodoxo, cabe lembrar a frase do filósofo grego Platão de que “a medida de um homem é o que ele faz no poder”. Não do que fala e defende quando está fora deste circuito.
*Doutor em economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e do Grupo de Estudos de Conjuntura do Departamento de Economia da UFES, articulista do Debates em Rede, e autor, entre outros, do livro “Karl Marx: a luta pela emancipação humana e a crítica da Economia Política”, publicado, em 2025, pela Editora Contracorrente
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