Profa. Ester Abreu Vieira de Oliveira*
“La buena dicha” é uma expressão espanhola para dizer “boa sorte”. Ela nos lembra a cultura cigana, pois, quando se aproxima de uma pessoa, a mulher cigana oferece-se para “tirar ou ler a sorte” e traz um ramo de romeiro ou arruda nas mãos. E isso já me ocorreu no Brasil e em Andaluzia, Espanha.
Nos dias de carnaval era comum vêem-se foliões vestidos de cigano ou de cigana e, como estamos nesse período carnavalesco, lembrei-me de quando tinha uns seis anos quando minha mãe fez para mim, em época carnavalesca, um traje de cigana: lenço na cabeça e roupa de chita estampada. Segurando-me na mão dela caminhava na rua. E meu prazer era balançar um pandeirinho que segurava na mão e andar balançando-me para fazer soar os pequenos chocalhos que adornavam as pontas do lenço posto na cabeça.
Os ciganos, quando chegavam em Muqui, muitas vezes, armavam suas barracas no começo do Entre Morros, num espaço antes dos prédios dos Rambalducci. Chegavam em caminhões e traziam cavalos. Além de ler a sorte das pessoas pelas linhas da mão, vendiam tachos, tinham a fama de roubos, de trocas, de enganos, e de levar crianças. Certa vez uma linda e jovem cigana, muito bem vestida, entrou em casa para ler “la buena dicha” de meu tio. Foram para um quarto e, com o objetivo de levar o que havia ali, pediu a meu tio água. Eu gostava de ir vê-los. Não entendia o que falavam e admirava a maneira como cozinhavam: ficavam de cócoras, misturando galinha e outras coisas numa única panela, sobre umas brasa e falando sem parar. Aquilo me encantava.
Minha irmã, certa vez, escondeu-se debaixo da cama com pavor de ser levada por ciganos que pararam em frente de nossa casa para tomar água. Esse é o medo das pessoas bonitas. O cronista Francisco Aurélio Ribeiro já narrou um fato de ter sido levado dentro de um balaio, por um grande trecho por ciganos.
Ciganos são grupos de pessoas, não homogenias, de várias etnias, e, tradicionalmente, nômades. Circulavam pela Europa, divididos em comunidades e se supõem que sejam originários da Índia.
Ao longo da historia da humanidade eles foram marginalizados e vítimas de preconceitos, por seu modo de vida incompatível com os costumes tradicionais do país em que estivessem. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foram, como os judeus, perseguidos, confinados em campos de concentrações nazistas, e, também, durante a formação das Monarquias Nacionais, na Europa, junto com judeus e muçulmanos.
Certa vez em Vitória, creio que na década de 70, estiveram ciganos acampados nas imediações de São Torquato. Era professora no Colégio Estadual do ES e levei meus alunos a uma pesquisa sobre a vida dos ciganos. Eles ficaram muito entusiasmados e produziram bons textos.
Histórias de amor e a magia da dança e da música cigana têm servido como temática em obras literárias e cinéticas.
Na Espanha os ciganos se enraizaram na Andaluzia. Concentraram-se em zonas urbanas e rurais, e deixaram ali uma cultura vibrante: música, dança e artesanato. Mas enfrentaram desafios em termos de integração social e habitação. Eles deixaram a herança do flamengo que se tornou dança típica espanhola. Mas falar de ciganos na Espanha não se pode deixar de lembrar do poeta Federico García Lorca, que publicou a obra poética “Romanceiro cigano”, em 1928, abordando diversos aspectos da cultura cigana da região de Andaluzia, sua terra natal, com temas de amor, destino, e tragédia, onde o mítico se une ao folclórico. O tema cigano (gitano) das crenças e códigos, dor e amor, é demonstrado por uma realidade chocante. A “Guarda civil” é demonstrada com pouca simpatia com morte, sangue, injustas perseguições, por exemplo no “Romance de la Guardia Civil Española”, nos primeiro versos do poema, o poeta descreve a chegada deles numa aldeia cigana: “Cuarenta guardias civiles/ entran a saco por ellas./ Los relojes se pararon,/ y el coñac de las botellas/ se disfrazó de noviembre” Citando os quarenta guardas civis a cavalo, à noite, ocultos, chegando na aldeia dos ciganos, o poeta menciona que a alegria da festa se transforma em morte disfarçada de novembro, lembrando o Dia de Finados. A cor negra torna-se símbolo da maldade na oculta chegada. O poeta se estende na descrição: cavalos, montaria, botas, noite em direção ao lugar onde residem os ciganos “Los caballos negros son./ Las herraduras son negras./ Sobre las capas relucen/ manchas de tinta y de cera./ Tienen, por eso no lloran,/ de plomo las calaveras./ Con el alma de charol/ vienen por la carretera./ Jorobados y nocturnos,/ por donde animan ordenan/ silencios de goma oscura/ y miedos de fina arena./ Pasan, si quieren pasar,/ y ocultan en la cabeza/ una vaga astronomía/ de pistolas inconcretas./ // ¡Oh ciudad de los gitanos!/ En las esquinas banderas./ La luna y la calabaza/ con las guindas en conserva./ ¡Oh ciudad de los gitanos!/ ¿Quién te vio y no te recuerda?/ Ciudad de dolor y almizcle,/ con las torres de canela.[…]. Depois da chacina, da queima, da destruição e da saída dos soldados, o poeta lamenta a destruição:” ¡Oh ciudad de los gitanos!/ La Guardia Civil se aleja/ por un túnel de silencio/ mientras las llamas te cercan./ ¡Oh ciudad de los gitanos!/ ¿Quién te vio y no te recuerda?/ Que te busquen en mi frente/ Juego de luna y arena.”
Assim, nessa aparência festiva de “la buena dicha”, saudada por uma cigana, de indumentária colorida, de sorriso fresco e brilhante, não sei agora, mas procuravam colocar dente de ouro, tiveram os ciganos perseguições registradas na História Universal, mas deixaram registro de suas culturas e um rastro de lendas e uma ilusão de que conhecem o futuro dos que se aproximam deles, como aconteceu com Macabeia, personagem da excelente obra Hora da Estrela de Clarice Lispector, publicada em 1977.
* Professora emérita da UFES e Escritora.
Não há comentários postados até o momento. Seja o primeiro!