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14 MAR. 2026

O PIB em 2026: as pedras no caminho


Fabrício Augusto de Oliveira 



O crescimento de 2,3% do PIB brasileiro em 2025 veio em linha com as previsões do mercado, do governo e das instituições de pesquisa. Não atingiu os níveis de crescimento dos anos anteriores, que foram de 2,9% em 2022, 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024. Mas, considerando as turbulências no mercado mundial provocadas pela política econômica do governo Trump a partir de 2024, pode ser considerado um sucesso. Mais importante, diante disso, é avaliar o que se pode esperar em 2026 num cenário em que as políticas trumpistas continuam imprevisíveis, com as guerras no mundo se acentuando, enquanto, no Brasil, o país continua enfrentando graves problemas, caso da elevada taxa de juros e do crescente fisco fiscal.

Para início de conversa, é preciso considerar o processo de desaceleração por que vem passando a economia brasileira. No último trimestre do ano, o PIB cresceu minguados 0,1%, a mesma taxa registrada no trimestre anterior, contra 0,4% no segundo trimestre e 1,4% no primeiro, sempre em relação aos trimestres anteriores. Não existem maiores evidências do que essas sobre a força dessa desaceleração, mas é importante conhecer os setores que têm se enfraquecido nesse processo.

Sob a ótica da oferta, o que tem garantido maior crescimento da economia nos últimos ano, são, principalmente, o setor de serviços, que tem participação expressiva no PIB, e, mais episodicamente, a agropecuária, já que a indústria vem apresentando desempenho modesto, quando não negativo. Em 2025, enquanto a agropecuária cresceu, no ano, 11,7%, o crescimento do setor serviços foi de 1,8% e o da indústria 1,4%. Mas houve acentuada perda de força destes setores no último trimestre do ano frente ao trimestre anterior: a agropecuária cresceu apenas 0,5%, os serviços 0,8% e a indústria recuou 0,7%.

Pela ótica das despesas, o consumo das famílias teve um crescimento de apenas 1,3% em relação a 2024 contra um crescimento de 4,8% neste último ano, e o consumo do governo de 2,1%, enquanto em 2024 este foi de 1,9%. Já a Formação Bruta de Capital Fixo (FBKF) avançou 2,9%, puxada pelo aumento da importação de bens de capital e pelo desenvolvimento de softwares, além da alta na indústria da construção, mas ante uma expansão de 7,3% em 2024. Em decorrência deste pior desempenho, a taxa de investimento caiu de 17% em 2024 para 16,8% em 2025, um nível muito baixo que vem se arrastando há anos.

O cenário do último trimestre do ano foi, no entanto, desolador: enquanto o consumo das famílias, carro-chefe do crescimento se manteve estável (crescimento de 0%), a Formação Bruta de Capital recuou 3,5%, mantendo-se positivo apenas o consumo do governo com expansão de 1%.

Não se pode dizer ser um cenário animador. Pelo contrário. Mesmo que o Banco Central dê início à redução da taxa de juros, essa deverá continuar, em termos reais, muito elevada, em torno de 10%, inibindo o consumo e o investimento. O consumo do governo, por outro lado, que tem ajudado a incrementar o consumo das famílias com as políticas de transferências de renda, vem encontrando dificuldades para se manter diante do crescimento da dívida bruta do governo geral (DBGG), que atingiu 78,7% em dezembro de 2025, e pela necessidade de cumprir as metas do arcabouço fiscal se se pretende evitar o descrédito deste instrumento.

Externamente, a insegurança é total com a guerra Estados Unidos/Israel contra o Irã. Os preços do petróleo dispararam e seus efeitos inflacionários no mundo são inevitáveis, o que pode conduzir à reversão da queda de juros no planeta ou a novos apertos monetários, enquanto a política tarifária de Trump, tornada um fetiche, dificulta qualquer previsão sobre essa questão.

Por se tratar de um ano de eleições, o governo pode até relaxar a política fiscal para tentar garantir sua reeleição, mas a sociedade poderá pagar um preço muito alto para os ajustes que terão de ser feitos em 2027. Como se costuma dizer nessa situação: “o mar não está para peixe”.


*Doutor em economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e do Grupo de Estudos de Conjuntura do Departamento de Economia da UFES, articulista do Debates em Rede, e autor, entre outros, do livro “Karl Marx: a luta pela emancipação humana e a crítica da Economia Política”, publicado, em 2025, pela Editora Contracorrente


Foto ilustrativa da internet: https://www.paulogala.com.br/pib-brasileiro-subiu-34-em-2024/





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