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05 JUN. 2026

Limites do crescimento econômico

Fabrício Augusto de Oliveira*


O Brasil registrou um crescimento econômico pujante no primeiro trimestre deste ano. Depois do desapontamento com a taxa de expansão do PIB ter recuado para 0,3% no último trimestre de 2025, a economia voltou a recuperar-se com maior força neste início do ano, colhendo uma taxa de 1,1% em relação ao trimestre anterior e de 1,8% na comparação com o mesmo período do ano passado, situando-o entre os países que mais cresceram neste período. Não sem motivo, vozes otimistas do governo voltaram a apostar numa expansão superior a 2% em 2026, embora o mercado continue se mostrando mais cauteloso apontando para uma expansão de 1,9%, de acordo com o Boletim Focus de 01 de junho.

O desempenho de seus componentes indica que isso foi possível pela maior força da demanda interna. Pela ótica da demanda, o consumo das famílias avançou 1% na comparação trimestral, impulsionado pela expansão da renda, do crédito e pela manutenção de um mercado de trabalho aquecido, pela manutenção de um mercado de trabalho aquecido, com uma taxa de desemprego em níveis historicamente baixos. Já a formação bruta de capital fixo (FBKF), que mede os níveis de investimentos, conheceu uma alta de 3,5%, embora a taxa de investimentos continue baixa, no patamar de 16,5% do PIB, quando se considera a sustentabilidade deste crescimento. Já a contribuição externa foi negativa, com as exportações contraindo-se 1,% e as importações crescendo 4,4%.

Pelo lado da oferta, as maiores contribuições vieram da agropecuária, com uma expansão de 2%, da indústria, com 1%, com destaque para a indústria extrativa, que cresceu 3,5%, e a indústria de construção civil, 2,9%. A indústria de transformação registrou, por sua vez, estabilidade, mas uma contração de 0,9% em relação ao mesmo período do ano passado, muito devido a permanência de taxas de juros extremamente elevadas. Já o setor serviços, que responde por cerca de 70% do PIB, expandiu-se 0,5% nessa mesma comparação.

Considerando as turbulências do cenário internacional e as dificuldades que o Brasil enfrenta internamento na atualidade, estes números são apreciáveis, revelando a resiliência da atividade econômica e do mercado de trabalho a esses problemas, ainda que nuvens da desaceleração já sejam visíveis. Mas o otimismo, comum em membros do governo, principalmente em ano de eleições, os tem levado a apostar numa rápida aceleração no segundo semestre propulsionada pela flexibilização monetária e a recuperação gradual da indústria de transformação. Existem, no entanto, não poucas forças que apontam em direção contrária.

Ainda que a expectativa que estava se formando de que a taxa de juros no Brasil deve continuar em queda, injetando ânimo no consumo e no investimento, o cenário atual é de incerteza sobre esse fato. Não somente a guerra Estados Unidos/Israel contra o Irã não dá mostras de chegar ao fim, continuando a gerar impactos sobre a inflação no mundo, como essa, no Brasil, retornou à trajetória de alta, com as expectativas do mercado voltando a projetá-la em 5,09% para 2026, superior, portanto, ao teto da meta de 4,5% para o ano. Não se pode esperar, diante disso, que o Banco Central, dado o seu conservadorismo em termos de política monetária, continue mantendo a taxa de juro numa trajetória de queda. Para agravar este quadro a nova investida de Trump contra o Brasil, com a elevação das tarifas impostas sobre as exportações para os Estados Unidos, muito provavelmente influenciado pela família Bolsonaro, deve colocar ainda mais lenha na fogueira inflacionária, ao atiçar negativamente as expectativas dos agentes econômicos sobre o futuro da economia.

Mas não é só. É crescente, também a desconfiança do mercado sobre as contas púbicas. Até o mês de abril, o governo geral cruzou a temida barreira da relação dívida bruta/PIB dos 80%, com a dívida líquida (DLSP), ou seja, descontados os ativos do governo, atingindo 67,4%. Na metodologia do FMI, que inclui nessa contabilidade, a carteira livre do Banco Central, essa relação pulou para 93,1% com projeção de que atingirá 100% no final do ano. Como não há perspectiva de sua redução, já que praticamente não se tem gerado superávits primários, vai se tornando cada vez mais difícil tanto sua administração como convencer os agentes econômicos que o país terá condições de pagá-la.

Além disso, o número de pessoas endividadas no Brasil, que chegou à impressionante casa de 82,8 milhões da população até março, o maior da série histórica da Serasa, aparece como mais um dado que revela a perda de força do consumo das famílias para continuar garantindo o crescimento econômico. Mesmo com o governo criando o Novo Desenrola (chamado de Desenrola 2.0) para “tirar a corda do pescoço dessa gente”, nas palavras de Lula, visando dar-lhe condições de novamente ir às compras, são evidentes os limites colocados para este componente do PIB, que responde por algo em torno de 65% de seu total, de continuar mantendo a economia mais aquecida. É mais provável que a desaceleração do segundo trimestre continue firme.

 

*Doutor em economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e do Grupo de Estudos de Conjuntura do Departamento de Economia da UFES, articulista do Debates em Rede, e autor, entre outros, do livro “A revolução marginalista neoclássica: o agente racional na história do pensamento econômico”, publicado, em 2026 pela Editora Contracorrente.

 

 

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