Fabrício Augusto de Oliveira*
Trump não tem jeito. Depois de ver boa parte de seu tarifaço, com o qual pretendia proteger empresas americanas da Segunda Revolução Industrial, retomando práticas do século XIX, ser derrubada pela Suprema Corte dos Estados Unidos, em fevereiro deste ano passado, onde conta com o apoio da maioria de seus integrantes, voltou à carga novamente, estabelecendo tarifas adicionais para inúmeros países, inclusive o Brasil, justificando-as como economias desleais na concorrência e que empregam trabalho forçado, em regime de escravidão, no processo produtivo.
Trump não está nem aí para o trabalho escravo no mundo. A verdade é que se pudesse transformaria todos os trabalhadores em escravos. O que está por trás dessa medida é o que ele considera concorrência desleal de outros países com os Estados Unidos por pagarem salários bem mais baixos aos seus empregados em setores enquadrados nessa condição, aumentando sua competitividade com os produtos estadunidenses. Nessa condição, enquadrou cerca de 60 países, incluindo a China, o Brasil, Argentina, Reino Unido, Japão, Rússia, Austrália, entre outros. Em menor grau, com uma alíquota um pouco mais baixa, colocou na lista países que considera com falhas na aplicação prática das regras para o combate ao trabalho forçado, como a União Europeia, o Canadá, México, Equador, Indonésia e Paquistão.
Para o primeiro grupo, que considera ser o que mais desrespeita os direitos dos trabalhadores (sic), a tarifa proposta, com base nas avaliações do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), é de 12,5%. Para o segundo, de 10%, tendo sido estabelecido um cronograma para consultas públicas que deverão ser realizadas até o dia 6 de julho antes da decisão final e a oficialização das tarifas. Preveem-se, no entanto, várias exceções de produtos estratégicos para a economia dos Estados Unidos, como petróleo bruto, gás natural, medicamentos, semicondutores, commodities agrícolas e minerais. Mesmo que o “suposto” trabalho escravo esteja presente, nestes casos, fecha-se o olho por sua importância para o país.
Nessa nova investida trumpista, o Brasil ainda poderá ser penalizado com a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre vários produtos por adotar práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os norte-americanos. Entre essas práticas, de acordo com a USTR, aparecem, na investigação feita, o PIX, o desmatamento ilegal, a pirataria e falhas na aplicação de leis anticorrupção. A proposta, que também será avaliada até o mês de julho, inclui uma longa lista de exceções para produtos considerados essenciais para os Estados Unidos, como carnes, frutas, café, aeronave, medicamentos, fertilizantes, produtos químicos orgânicos, entre outros, que reduz bastante seu potencial de afetar a economia brasileira. Ainda assim, se aprovada, não deixará de ter algum impacto sobre as exportações do Brasil para este país.
Trump anda batendo cabeça com as tarifas desde abril de 2025 quando deu início ao seu aumento que chegaram até 125% no caso da China, com o objetivo de fortalecer a atividade econômica dos Estados Unidos com barreiras protecionistas. De lá para cá, ao contrário do pretendido, tem colhido derrotas em seus objetivos não somente no campo legal, mas também econômico e financeiro.
No campo legal, com a decisão da Suprema Corte de considerar ilegal o tarifaço de abril do ano passado, derrubando algumas das tarifas mais significativas impostas ao resto do mundo como medida protecionista, ao que ele reagiu estabelecendo uma nova tarifa de 10%, depois elevada para 15% no dia seguinte, dia 21 de fevereiro, o que lhe é permitido pela Lei do Comércio de 1974, na Seção 122, embora por um período de 150 dias, que pode ser renovado.
No campo econômico, pelos efeitos corrosivos provocados por seu tarifaço na economia global e do próprio Estados Unidos, que dele se queria valer para crescer, situação agravada pela guerra travada pelo Irã. Não somente as projeções de crescimento do mundo recuaram, como a inflação nos Estados Unidos e no mundo passou a assombrar os investidores e a exigir das autoridades monetárias elevação das taxas de juros para conter seu ímpeto, esfriando a atividade econômica. Nos Estados Unidos, o índice inflacionário saltou de 2,6% em 2024 para 3,8% até o mês de abril de 2026, com projeções de que ultrapassará a casa dos 4% contra uma meta de 2% estabelecida pelo banco central (o FED).
No campo financeiro, Trump, depois de ter se gabado de ter arrecadado US$ 130 bilhões com as tarifas consideradas ilegais de acordo com a decisão da Suprema Corte, corre o risco de ter de devolver estes valores aos países que tiveram de arcar com os seus custos.
Por todos estes motivos, a popularidade de Trump está despencando em seu país. A torcida é grande para que essa trajetória não seja interrompida, porque é crescente a certeza de que o mundo será melhor sem que esteja à frente da maior economia do mundo.
*Doutor em economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e do Grupo de Estudos de Conjuntura do Departamento de Economia da UFES, articulista do Debates em Rede, e autor, entre outros, do livro “A revolução marginalista neoclássica: o agente racional na história do pensamento econômico”, publicado, em 2026 pela Editora Contracorrente.
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