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14 AGO. 2026

O teatro e seus pactos

              
Erlon José Paschoal*

    Mais um texto teatral de minha autoria foi lançado pela Editora Cândida de Vitória-ES. Depois de “Vida que segue” que, junto com “O Céu é o limite” e “Nem tudo são flores”, forma por assim dizer uma espécie de trilogia, surge agora o “Pacto de Sangue”, um melodrama farsesco que se propõe a refletir sobre as relações amorosas e econômicas em nossa sociedade, elaborado com muito humor e muitas surpresas.

    O enredo é simples: a morte acidental de um empresário, ao lado de sua esposa, desencadeia uma série de conflitos familiares, em torno da disputa das possíveis heranças. A existência de algum pacto feito entre o empresário e a sua esposa surpreende e enraivece os membros da família. Ao final, a esposa e o público se defrontam com uma nova realidade até então oculta e de certo modo inesperada.

    Vale destacar que o melodrama se tornou a forma mais popular de acesso a estruturas dramatúrgicas no Brasil, com a Radionovela e o Circo-Teatro, ambos muito difundidos na minha infância, e depois com as novelas de TV. Ele é conhecido por suas expressões emocionais exageradas, dramas íntimos dolorosos carregados de sofrimento, divisões maniqueístas entre vilões e mocinhos, entre o bem e o mal e seus respectivos clichês comportamentais, levando o público quase sempre a se identificar com os personagens e ao final se derramar em choros e soluços.

    Um dos maiores dramaturgos brasileiros, Nelson Rodrigues, por exemplo, também lançava mão desses artifícios na composição dos conflitos de seus personagens. Para o diretor e professor de teatro Luís Artur Nunes que dirigiu dez textos desse autor, “era evidente que Nelson toma emprestado do melodrama um vasto repertório de procedimentos narrativos: a ação dramática acelerada, revelações inesperadas, pistas falsas, reviravoltas surpreendentes, desfechos catastróficos etc. Suas tramas sempre lidam com situações extremas, fatos exorbitantes. Os agentes desses excessos, portanto, não podem ser criaturas comuns. São seres extraordinários, movidos por forças obscuras e incontroláveis, incapazes de comedimento ou concessão. Podemos empilhar adjetivos como radicais, exacerbados, paroxísticos etc. quando nos referimos a esses heróis e heroínas sempre à beira de um ataque de nervos.”

    “Pacto de Sangue” faz uso intencional de tais estruturas, já a partir do próprio título, mas, ao mesmo tempo, as descontrói, deixando vir à tona as verdadeiras intenções dos personagens em toda a sua ganância, hipocrisia e perversidade. E nesse sentido, o humor se torna o melhor caminho para se obter tais efeitos de distanciamento. De acordo com a atriz e poeta Nora Prado:

    “Neste texto, o autor revisita os gêneros melodrama e farsa, criando uma história divertida, na qual critica os interesses da pequena burguesia brasileira, através de personagens interesseiros e ardilosos, que tramam uns contra os outros, buscando sempre satisfazer os próprios desejos. ( ) O autor usa uma lente de aumento para tratar do oportunismo sanguessuga que aflora, abundante, nas classes média e alta da nossa sociedade, usando o humor para ressaltar os nossos piores defeitos.”

    Por sua vez, para o jornalista e diretor de cinema e teatro, Luiz Tadeu Teixeira:

     “O autor constrói um melodrama ágil, temperado com um humor irônico, ferino, e muita crítica social. Seus diálogos fluentes contribuem para a dinâmica dos personagens, e os conflitos são agravados por uma situação insólita que surpreende a todos.”

    Alguns cineastas, confesso, me serviram também de inspiração para essa combinação entre a crítica social e um certo “abuso dos clichês referentes aos sonhos de consumo da burguesia brasileira”. Entre eles, dois alemães, Douglas Sirk, considerado o mestre do melodrama cinematográfico, e Rainer Werner Fassbinder com suas dezenas de filmes, dissecando o caráter autoritário, presente em grande parte de seus personagens em cenas melodramáticas, e que remetem inevitavelmente ao passado nazista de seu país. Segundo o Produtor, Gestor Cultural e Roteirista, Marcelo Siqueira, fica evidente que:

    “Pacto de Sangue traz a crítica moral presente no melodrama reflexivo de Sirk, um crítico feroz das tensões e hipocrisias da sociedade norte-americana dos anos 1950. Além disso, nota-se a influência do chamado ‘melodrama com distanciamento’ de Fassbinder, marcado por um discurso crítico sobre a hipocrisia social, o papel da mulher e a opressão da classe média alta.( ) Os personagens da trama representam um universo de ambiguidade. São figuras marcadas por amores por contrato, crueldade nas relações familiares despidas de afeto, abusos, cinismo, oportunismo, desejo, ambição e morte.”

    Mas o humor sutil subjacente à sequência das cenas que compõem a peça leva o leitor e o público a considerar criticamente o comportamento dúbio dos personagens, mas sem se identificar com eles, o que poderia conduzir a tristezas e lágrimas.

    O melhor caminho, então, é ler para crer. Adquira o texto teatral “Pacto de Sangue” com desconto no site da Editora Cândida. E que ele cumpra o seu destino de um dia ser levado aos palcos. Boa leitura!

* Dramaturgo, Escritor, Diretor de Teatro e Tradutor
    

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