Fabrício Augusto de Oliveira*
O pessimismo sobre o desempenho da economia brasileira neste ano está sendo retomado com força depois que o IBGE divulgou os resultados do PIB do segundo semestre, cujo aumento foi de 0,5%, após um crescimento mais expressivo de 1,1% no trimestre anterior, indicando a trajetória de uma desaceleração mais forte a partir do terceiro trimestre. Os dados divulgados sobre o desempenho dos componentes do PIB não deixam dúvidas sobre essa tendência.
Do lado da oferta, foi o setor agropecuário que garantiu essa expansão, com um crescimento de 2,8%, enquanto o setor serviços, responsável por mais de 70% de sua geração cresceu modestos 0,2% e a indústria 0,1%. Do lado da demanda, o consumo das famílias, principal motor do crescimento, conheceu uma retração de -0,4%, o que foi compensado por um avanço de 0,4% do consumo do governo, registrando uma forte queda em relação aos períodos anteriores, e também por um modesto crescimento da formação bruta de capital fixo (FBKF) de 1,2%. Já o setor externo deu uma contribuição negativa para o desempenho do PIB no trimestre, com um recuo de -0,8% das exportações e um aumento de 1,8% das importações.
Diante deste quadro, as projeções do crescimento para este ano, começaram a ser reduzidas. O mercado, que antes apostava numa taxa de expansão superior a 2%, já espera que ela não passe de 1,93%, de acordo com o Boletim Focus divulgado no dia 08 de setembro, mesmo ligeiramente melhorando essa projeção em relação ao boletim anterior. A XP investimento reduziu também sua expectativa de 2% para 1,7%, na contramão do Banco Central que a havia aumentado para 2%, mas com base no desempenho registrado no primeiro trimestre. O mesmo acontece com os organismos internacionais que ainda não refizeram suas projeções após o melhor desempenho do primeiro trimestre.
Há boas razões para esse pessimismo. A elevada taxa de juros, principalmente em termos reais, que trava o consumo e o investimento; o forte endividamento das famílias, que atinge mais de 80 milhões da população e que limita a continuidade dessa aventura, apesar do programa Desenrola 2, que amenizou a situação de uma parcela dessa população, mas sem resolver o problema; e o esgotamento da capacidade do governo de continuar estimulando o consumo das famílias, dados seus desequilíbrios fiscais, e o avanço da dívida pública consolidada do setor público para 82,5% do PIB, no conceito do Banco Central, e de 95,6%, no do Fundo Monetário Internacional (FMI), que exigirá do governo forte ajuste das contas públicas, além da continuidade das guerras entre a Rússia-Ucrânia e Estados Unidos/Israel-Irã, que mantém o cenário mundial permeado de incertezas. Não sem razão, as projeções de crescimento do PIB, no Brasil, para 2027, se encontram atualmente em 1%, diante dessas dificuldades.
O consenso que passou a predominar entre os analistas econômicos é o de que as armas do governo para manter a economia aquecida estão se esgotando, se já não se esgotaram, diante do drama fiscal, e que não se pode contar, nem interna, nem externamente, com um fator que consiga afastar o avanço de uma desaceleração maior, apesar de ser um ano de eleições. E pior: nem reverter o ingresso da economia num quadro de crescimento muito baixo e até mesmo recessivo em 2027, dados os ajustes que terão de ser feitos principalmente no campo fiscal, dada a forte deterioração das contas públicas, manejadas para manter a economia aquecida pelo atual governo.
* Doutor em economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e do Grupo de Estudos de Conjuntura do Departamento de Economia da UFES, articulista do Debates em Rede, e autor, entre outros, do livro “A revolução marginalista neoclássica: o agente racional da história do pensamento econômico”, publicado pela Editora Contracorrente, em 2026.
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