Erlon José Paschoal*
O prédio da Fafi, inaugurado em 25 de novembro de 1926, comemora nesse ano seus 100 anos de existência e seus 34 anos funcionando como uma escola de artes contemplando, sobretudo, três linguagens artísticas: o teatro, a dança e a música.
Localizado no centro de Vitória, esse edifício foi considerado ao longo das últimas décadas um dos espaços culturais mais significativos da capital e de todo o Estado, por privilegiar a aprendizagem de práticas artísticas tão necessárias em uma sociedade que almeja avançar e se modernizar.
Tive o prazer e a bela missão de participar dos primórdios da existência da Fafi, ainda dividindo espaço com as obras em andamento e a restauração de seus espaços físicos, a partir de 1991, quando ela se tornou uma escola de artes, oferecendo oficinas de curta duração em diversas áreas artísticas: do teatro à fotografia, da dança à cerâmica, da musicalização ao cinema. Naquele ano assumi como professor e encenador o processo de formação da primeira turma a se formar em teatro na instituição, culminando em uma apresentação em dezembro de 1991.
Ao final desse primeiro ano, em meio a escombros e a muita paixão e dedicação à arte teatral, montamos e apresentamos no Teatro Carmélia M. de Souza o espetáculo “Atrás de Vitória”, texto meu em parceria com Margareth Galvão. Vera Viana, a então Secretária de Cultura de Vitória, assim avaliou a importância da apresentação de encerramento da primeira turma de teatro da Fafi em seus momentos iniciais, composta por quatorze alunos:
“Durante o ano de 1991, a Secretaria Municipal de Cultura e Esportes desenvolveu 30 cursos e oficinas ligados a diferentes áreas da cultura, envolvendo gratuitamente um público de aproximadamente 1000 pessoas. Em março iniciamos o Curso Livre de Teatro da Fafi, para dar aos interessados um mínimo de conhecimento, além de ampliar o mercado de trabalho para os professores da área.
É com o orgulho que a PMV traz até vocês o resultado desse trabalho que tem o esforço pessoal de cada aluno e a dedicação de todos os professores. Parabéns aos alunos e muito obrigada a todos que tornaram possível este espetáculo.”
No ano seguinte, em 1992, com a reforma já terminada, foi inaugurada de fato, para a alegria e orgulho da cidade, a Escola de Artes Fafi que, nos seis anos seguintes, ofereceu oficinas de iniciação em diversas áreas artísticas. Pretendia-se atender à necessidade de se formar um quadro profissional de atores e bailarinos para fortalecer o mercado de trabalho artístico de que o Estado carecia, e assim atrair cada vez mais o público interessado na fruição de artes cênicas. Em 1998, portanto, para viabilizar mais amplamente tais objetivos, ela viria a se transformar em uma Escola de Qualificação Profissional de Teatro e Dança.
No ano anterior, em 1997, desenvolvemos com esse intuito uma ação denominada “Debatendo a Fafi”, para a qual foram convidados representantes de seis escolas similares de outros Estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e Bahia, a fim de explanarem sobre suas respectivas experiências e seus acertos e erros ao longo do processo de implantação de tais cursos em suas respectivas cidades. O objetivo era evidentemente possibilitar aos alunos, professores, ao quadro administrativo e a todos os interessados, uma visão do que já existia em funcionamento no país para que pudéssemos escolher então a forma mais apropriada à realidade do Espírito Santo.
Após essa rica troca de experiências, optamos então por um curso de 980 horas/aulas durante quatro semestres, de 2° a 6° das 19h00 às 22h00, com turmas de 20 alunos em teatro e dança, respectivamente, com a meta consensuada de ampliar o mercado de trabalho do artista local e incentivar a formação de um público qualificado. E com os objetivos de formar no final de 1999 as duas primeiras turmas em teatro e dança; atender nos dois primeiros anos a 80 alunos nos cursos de qualificação profissional e a 500 alunos nas oficinas livres; formar profissionais predispostos ao estudo e à pesquisa e conscientes da importância social de seu trabalho; proporcionar uma preparação técnica adequada que capacitasse o ator e o bailarino a desempenharem bem a sua função; formar profissionais criativos, inquietos, críticos e aptos a superar continuamente os seus limites e, por fim, preparar artistas disciplinados, responsáveis, atuantes em seu meio e cientes do valor estético de seu trabalho. E assim foi feito.
Paralelamente à prática do ensino, a Fafi implementou e ofertou aos alunos e à comunidade em geral uma série de eventos e projetos culturais, visando ampliar a visitação pública em suas dependências, por meio de atividades artísticas enriquecedoras, tais como, o Palco Aberto, as Quartas na Fafi sem falta, o Fafi Doze e Trinta, o Fafi Acústico, a Fafi 2000, o Encontro com o Artista, o Imagem em Cena e o Via Fafi, que revelou inúmeros talentos musicais locais.
Desse modo, a Fafi se tornou ao longo dessa década um dos principais pontos culturais da cidade, uma referência importante para todos que se interessassem por artes. Esse centro cultural efervescente desenvolveu também parcerias diversas e intercâmbios com profissionais brasileiros renomados em suas respectivas áreas de atuação, tais como Augusto Boal, Márcio Meirelles, Paulo de Moraes, Cida Moreira Cristina Pereira, Hamilton Vaz Pereira, Carlota Portela, Dárcio Lima e João Nogueira. Além, é claro, de muitas atividades realizadas por artistas locais como, por exemplo, a oficina “O Corpo e a Imagem” coordenada por Amylton de Almeida, Deny Gomes e Paulo Roberto Sodré, em 1992, embrião do roteiro de seu longa-metragem “O Amor está no ar”, filmado em 1995.
Foram anos de trabalho intenso, mas sempre muito produtivos, fazendo da Fafi o maior foco da revitalização cultural do centro de Vitória, onde me mantive ativo até 2004, como Professor e Coordenador de Teatro. Entre as funções de coordenação constava o acompanhamento dos procedimentos pedagógicos colocados em prática no decorrer do curso para que pudéssemos atingir de maneira satisfatória as metas e os objetivos almejados pela Escola, e a organização criteriosa das atividades culturais da instituição. Além disso era imprescindível o apoio constante ao trabalho dos professores durante todo o processo de formação e evolução dos alunos, através de reuniões periódicas e de avaliações diretas, a fim de integrar a atuação do corpo docente, e zelar pela coesão e unidade de propósitos dos métodos adotados. Tarefa nem sempre fácil e isenta de conflitos, mas necessária e saudável para todos os envolvidos.
Foi de fato um trabalho feito a muitas mãos, em parceria com a então coordenadora de Dança Maria Lúcia Calmon, e com vários professores e profissionais, entre eles, Margareth Galvão, Alza Alves, José Luiz Gobbi, Renato Saudino, Wilson Nunes, Ednardo Pinheiro, Francisco Goulart, Marcelo Ferreira, Paulo DePaula, Márcia Gaudio, Geisa Ramos, Robson de Paula, Colette Dantas e Milson Henriques.
A convivência constante e saudável com quase todas as pessoas que se dedicavam à prática teatral nesse Estado e, sobretudo, por ter participado ativamente na formação de inúmeros jovens e iniciantes nessa arte milenar tão fundamental em uma sociedade civilizada, me enriqueceu profundamente como ser humano e como profissional das artes cênicas, durante os quatorze anos de trabalho na instituição.
Essas múltiplas vivências contribuíram, sobretudo, para o aprimoramento de uma bagagem teatral que já trazia de minha formação em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belém, antes de me mudar para Vitória, e tendo justamente a Fafi como uma porta de entrada no fazer teatral local, como se fosse realmente um presente do Espírito Santo, fato do qual sempre me orgulhei.
Além disso pude aperfeiçoar o exercício da prática dramatúrgica, publicando seis textos teatrais, aprofundar as reflexões acerca da arte teatral em toda a sua abrangência e encenar vários espetáculos nesse período como “Ainda Bem que aqui deu Certo”, texto meu em parceria com Margareth Galvão, “O Muro” de Silvio Barbieri, “As Cadeiras” de Ionesco, a ópera “Dido e Enéas” de Henry Purcell, “A Palavra que Apalavra” de Jace Teodoro, assumir a direção de Atores e Seleção de Textos da “Ópera Panela de Barro” nos 450 anos de Vitória em 2001 e realizar a tradução do texto “Ludwig e as irmãs” de Thomas Bernhard, que estreou no Teatro Carlos Gomes em 2002, com os atores Ricardo Blat e Giovanna de Toni e direção de Maurício Paroni de Castro.
Vale lembrar que a Fafi e o Centro Cultural Carmélia M. de Souza formavam os dois polos culturais mais ativos e atraentes da cidade na década de noventa, fortalecidos também pelos investimentos feitos através da Lei Rubem Braga, criada em 1991. Foram anos de muita criatividade, de muita produção cultural e de muita aprendizagem, com a presença sempre constante do público. Afinal assim é a vida cultural de uma cidade, forjada por uma luta coletiva sem fim, dinâmica e intensa, mas sempre prazerosa.
* Escritor, dramaturgo, diretor de teatro e tradutor
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